23 maio, 2018

[CRÍTICA] Descaso da prefeitura, incêndio e despejo: um "presente" para o samba

Agremiações pagam o preço da falta de incentivo à cultura na cidade. Prefeitos ignoram problemas de segurança dos barracões e permitem que vidas fiquem expostas ao risco; Agremiações da Série A ficam sem teto.

Desvalorização da cultura carioca, falta de suporte no decorrer do ano às escolas de samba, negligência com os barracões das agremiações, atraso no repasse de verba, corte de verba. É desta forma que o carnaval tem se mostrado o objeto de menor importância para as secretarias de cultura da cidade do Rio de Janeiro, ao menos, desde o final da década de 90, quando comecei a acompanhar os festejos carnavalescos. 

Na eleições municipais, um monte de candidatos pedem voto nas quadras das escolas de samba, ou então quando o locutor anuncia, por exemplo "Sr. Deputado Julio Lopes" ou "Sra. Deputada Cristiane Brasil", falando de forma fictícia, em algum evento na quadra de alguma agremiação. A promessa de um carnaval melhor, mais estruturado, que tenha envolvimento maior do poder público para que o espetáculo seja ainda mais gigantesco, fica só no discurso. Entretanto, o que sentimos é o constante sucateamento do carnaval do Rio de Janeiro.

Duas alegorias da União da Ilha e, ao fundo, fumaça do fogo controlado / Foto: Gazeta do Povo
O desmonte recente do carnaval carioca teve o seu pico em 2011, quando houve o incêndio na Cidade do Samba - construída para a segurança somente do grupo de elite do carnaval do Rio - e quando foi decidido que nenhuma agremiação seria rebaixada naquele ano, devido às grandes perdas no barracões da Grande Rio (candidata ao título daquele ano), União da Ilha (que havia conseguido um bom patrocínio para o desfile e vinha para competir entre as seis primeiras) e Portela (com o carnaval mais atrasado do Grupo Especial).

No mesmo ano de 2011, no mês de junho, começaram as ordens de despejo das escolas de samba que tinham os seus barracões localizados no Carandiru, na Praça Marechal Hermes, no Santo Cristo. O motivo alegado foram as obras do Porto Maravilha e instalações das Olimpíadas Rio-2016. Além da remoção de 38 famílias que viviam no local. As "benfeitorias", segundo noticiou o jornal O Dia, eram as construções de "vilas de mídia e árbitros, com cerca de 11 mil quartos; o centro de convenções, que terá cerca de 50 mil metros quadrados; um hotel cinco estrelas com 500 quartos; e ainda instalações olímpicas temporárias, como centros de mídia, de operações e de credenciamento". A prefeitura, então, decidiu direcionar essas agremiações a Rua Peter Lund, 30, no Caju e abrigaria Unidos de Vila Santa Tereza, Difícil É o nome, Unidos de Padre Miguel, União do Parque Curicica, União de Jacarepaguá, Mocidade de Vicente de Carvalho e Acadêmicos de Santa Cruz. Nessa brincadeira, a antiga quadra da Vizinha Faladeira teve de ser desativada.


Antigo barracão da Renascer / Foto: Sambarazzo
Incêndios viraram rotina

As medidas de prevenção que a prefeitura poderia oferecer não são oferecidas. O máximo, como já descrito acima, um deslocamento para uma outra área que também não possui condições para que os trabalhos de uma agremiação sejam realizados. No carnaval de 2018, por exemplo, a Renascer de Jacarepaguá, que tinha o seu barracão situado pela mesma região das demais, mas ao lado da quadra da Unidos da Tijuca, onde se situavam os antigos barracões do Império Serrano e Tradição, sofreu com incêndios ao menos duas vezes durante os preparativos do seu desfile. 





Mais operação da prefeitura que removeram as agremiações de seus barracões

Incêndio no barracão da Unidos da Ponte e Lins Imperial / Foto: ANSA
Recentemente, mais problemas em relação às instalações. Mais uma vez com escolas de samba que de menor expressão, demonstrando o total desrespeito do poder público para com a cultura do samba. A Lins Imperial (6ª colocada no Grupo B da Intendente Magalhães com o enrendo Zicartola) e a Unidos da Ponte, que conquistou o direito de desfilar na Série A 2019 após ser campeã do Grupo de Acesso B, com o enredo Romance de Xangô: a dança do fogo, sofreram com a perda de muitos materiais. Abrigadas no barracão cedido pelo Império da Tijuca, também na zona portuária, na altura da Rodoviária Novo Rio, um incêndio misterioso destruiu alegorias que lá se encontravam. Segundo relatos da própria diretoria da Verde e Rosa, a causa do sinistro foi devido a moradores de rua, que ateavam fogo em alguns objetos, do lado de fora do barracão. A possível solução para estes grandes problemas seria o cumprimento da promessa da construção da Cidade do Samba 2.


À direita, Eduardo Paes / Foto: O Carnavalesco
Um "trote" chamado de Cidade do Samba 2

Sim, é um trote. Não existe a menor possibilidade de não afirmar que a construção de uma nova Cidade do Samba, que abrigue agremiações da Série A e divisões da Intendente Magalhães, não passa de uma grande "tiração de sarro" com a cara do povo do samba, desde 2011. Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro, garantiu, por meio do seu Secretário de Turismo, Antonio Pedro Figueira de Mello, que a Cidade do Samba 2 ficaria pronta em pouquíssimo tempo. Leia AQUI a matéria do jornal Extra com o trecho em que Figueira de Mello afirma que o novo templo do samba seria levantado.

Em 2016, no entanto, após uma série de fatores que contribuiriam com o discurso político do "agora não dá, deixa pra próxima", Eduardo Paes não quis saber de delongas e foi direto ao afirmar que a Cidade do Samba 2 foi descartada - confira AQUI.

Escolas mirins sofrem junto

Já na gestão do bispo-prefeito Marcelo Crivella, mais ordens de despejo. Após campanha em quadra de escolas de samba, fazer cara de santo, cantar e fazer o seu show próprio para conseguir votos, anúncio de corte de verba. Mas isso não seria o suficiente para um gestor que encara cultura popular como "pecado". Uma semana após os desfiles do carnaval 2018, a Justiça autorizou a desocupação do galpão na Rua do Equador, local que abrigava alegorias da Alegria da Zona Sul, Acadêmicos do Sossego, Unidos do Cabuçu e duas agremiações mirins, a Miúda do Cabuçu e Mangueira do Amanhã. O local, inclusive, era utilizado por pessoas sem teto e que trabalhavam também com as agremiações nos períodos de produção. A alegação foi a falta de conservação do local, além das obras do VLT e Porto Maravilha. A prefeitura mal se preocupou em realocá-los. 

Escolas da Série A sem teto

Enquanto os descasos vão aumentando e não temos a menor previsão de quando teremos locais adequados para receberem pessoas e materiais de produção, a Inocentes de Belford Roxo, Alegria da Zona Sul (que já havia se mudado) e Santa Cruz podem receber a qualquer momento uma ordem de despejo de seus respectivos barracões, situados na Avenida Pereira Reis. A agremiação baixadense, inclusive, ocupa o espaço desde 1998. No total, serão 10 carros alegóricos sem local para serem guardados.


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